Radiojornalismo cearense nos anos de chumbo: Rádio Uirapuru e a censura de 1968
Ana Karine Zaranza
Resumo:
O presente trabalho é parte da pesquisa História e Memória do Rádio Cearense, desenvolvida na Universidade de Fortaleza, (UNIFOR). Ele destaca a presença da censura dos órgãos federais à programação jornalística da Rádio Uirapuru em 1968, ano da instauração do Ato Institucional n° 5. A metodologia empregada é da história de vida de jornalistas que trabalharam na emissora durante esse período, e da pesquisa bibliográfica. Dadas as características do meio rádio não existe registro ou qualquer prova documental sobre o tema, sequer nos arquivos da Polícia Federal local. As falas dos informantes apontam para uma censura explicita por parte do Governo, perseguição, ameaças e prisões de radialistas, culminado com o fechamento temporário de uma emissora local, por ordem da ditadura militar. O artigo objetiva explicitar: Como os radialistas lidaram com a censura? Que tipo de resistência empreenderam? Qual a visão que eles têm hoje sobre os fatos vivenciados?
Palavras-chaves: memória, radiojornalismo, AI-5
O Ceará guarda em sua memória histórias de lutas, como a confederação do Equador, o embate entre os índios e os portugueses, a relação dramática do sertanejo com a seca; irreverências como a vaia dada ao sol em plena Praça do Ferreira, quando do seu reaparecimento após três dias de chuva, a eleição do bode ioio, as idéias visionárias, como a Abolição da escravatura, o humanismo do movimento que se denominou Padaria Espiritual, entre outras. Historias de vida de Joãos, Marias, Josés, Bárbaras, Iracemas vão constituindo nossa história, a do povo cearense.
“A cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.” (Cabino,1990, p.14).
Esse trecho do livro As Cidades Invisíveis mostra a relação entre a cidade e a história, apontando a cidade como um lugar de memória. É por isso que os monumentos são criados pela mão do homem com a finalidade de conservar sempre viva e presente a lembrança de determinada ação ou existência. Mas e a memória imaterial? Tudo aquilo que se sedimenta nas rotinas diárias, no modo de fazer e ser da coletividade, nos rituais e mitos que constituem o imaginário social? Recuperar esta memória é uma tarefa ainda mais árdua pois a nossa relação com o passado é problemática, (BENJAMIN, 1983) ela vagueia entre lembranças, esquecimentos, silêncios, sombras, “o dizível” e o “não dizível”.
O depoimento é o instrumento pelo qual a memória se expressa e ela só tem sido em relação a um grupo porque a memória é um ato coletivo. No entanto, a memória coletiva depende das memórias individuais para existir. É por isso que as histórias de vida de cada sujeito é importante para a construção de uma “história maior”.
A história de vida é a metodologia de eleição para trabalhar a categoria memória. Maria Izaura Pereira de Queiroz (1988), assim a define: “O relato de um narrador sobre sua existência através do tempo, tentando reconstituir os acontecimentos que vivenciou e transmitir a experiência que adquiriu” (QUEIROZ, 1988, p.20).
É essa memória cearense que queremos resgatar por meio da história e memória do rádio cearense, especificadamente da Rádio Uirapuru no ano de 1968. O período de 1964 a 1983 foi marcante para todo Brasil. Ocorreram mudanças econômicas, políticas e sociais decorrentes do golpe militar que originou o regime político denominado de Revolução de 31 de março para os dominadores e ditadura militar para os oprimidos. O ano de 1968 foi, o de maior efervescência política e de repressão. Foi nesse ano que o governo Costa e Silva editou o Ato Institucional no 5 , AI-5, que tornou o regime ainda mais repressor. O ato fechou o Congresso, instaurou inquéritos militares sigilosos, além de mobilizar um aparato de forças repressoras para fazer frente a “um processo de guerra revolucionária”. O AI-5 apresentou-se como uma medida permanente, ao contrário do caráter provisório dos demais atos institucionais, vindo a ser revogado 11 anos depois.
A história do rádio no Ceará começou com a Ceará Rádio Clube em 28 de agosto de 1931 em Fortaleza.Em 1932 a rádio iniciou suas atividades com o prefixo PRATT. Só depois, ela passou ater o prefixo PRE-9. João Dummar, o dono da Ceará Rádio Clube, trouxe, segundo João Dummar Filho(2004), grandes estrelas nacionais e internacionais para cantarem e tocarem em sua emissora.
A compra do mais moderno transmissor de ondas curtas, a instalação dele e a montagem do novo estúdio no edifício Diogo foram comemorados com festa, segundo João Dummar Filho (Dummar Filho, 2004:53-55). Em 1941 foram inaugurada as novas instalações da rádio, que se tornou a terceira emissora de ondas curtas do Brasil. Segundo Vasconcelos (2004), essa mudança ocorreu devido a concorrência da Rádio Iracema.
Em 1944, a PRE-9 passa para as mãos de Assis Chateaubriand, o dono do império dos Diários Associados. A compra fortaleceu seus negócios e se deu devido a então legislação que não permitia a posse de meios de comunicação a estrangeiros. E como João Dummar era sírio e chegou aos sete anos em Fortaleza, foi obrigado a vender sua emissora ao empresário.
Os grandes nomes locais eram Aderson Brás, Narcélio Limaverde, Irapuan Lima, José Limaverde, Mozart Marinho, Iracilda Gondim, Cid Carvalho, Blanchard Girão, entre outros.
A rádio Iracema de Fortaleza foi instalada em 9 de outubro de 1948, sendo a segunda emissora cearense. Seus funcionários, José e Flávio Parente e Dr. José Josino da Costa, faziam parte do mesmo grupo da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Instalada no edifício Vitória e depois no Palácio Guarany. Segundo Cid Carvalho, a Rádio Iracema virou escola, “servindo de berço para o nascedouro de outra emissora, a Rádio Uirapuru”.( Revista de Comunicação Social- ANO, p.25)
A terceira estação de rádio cearense, também conhecida como a “Emissora do Pássaro” foi inaugurada por José Pessoa de Araújo e Aécio de Borba Vasconcelos e era conveniada com Mayrink Veiga e com a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. O destaque na programação era o jornalismo e o esporte.
“A Uirapuru tinha um canto diferente das demais”. Revolucionou a forma de fazer o rádio local com as transmissões de futebol, reportagens, jornais e boletins que entravam de hora em hora. Segundo Cid Carvalho, o jornalismo era “a menina dos olhos” de Afrânio Peixoto, diretor da divisão especializada. Por isso, a equipe de profissionais “era de altíssima competência, vindos das redações de jornais da capital e até de outros estados”. Foi assim que surgiu a primeira rádio que teria o cunho essencialmente jornalístico. Carlos Alberto, Palmeira Guimarães, Sérgio Reis e Cid Carvalho são alguns dos nomes dessa emissora.
A Rádio Dragão do Mar entrou no ar no dia 25 de março de 1958, fundada pelo Partido Social Democrático (PSD). Tinha sua linha jornalística e política forte na programação e caracterizada como de oposição ao governo. Como o PSD não tinha mais meios de sustentar a emissora, ela passou para as mãos de Moysés Pimentel, continuando com a mesma linha. “Seria Rádio Dragão do Mar, a começar pelo nome, uma emissora diversa das demais. Mais política, mais polêmica, preocupada com o interior do Estado e em emitir opiniões” (CARVALHO, ANO, p.30). Em 1964, em decorrência do Golpe Militar, a Rádio Dragão do Mar fechou por alguns meses, voltando ao ar sob nova administração e com sua “visão e atuação política descaracterizada”.
Márcia Vidal (2000) aponta como importante o papel que o rádio desempenhou no período do golpe militar de 1964. Imediatamente após o fato veículo difundiu “por um curto espaço de tempo, uma discussão de resistência do movimento popular e convoca a população a defender a democracia e o presidente eleito”.
As relações de poder sempre determinaram a direção da política e nesse momento histórico estavam em jogo grandes interesses econômicos e ideologias de caráter conflituoso, o que fazia da mídia, (o jornal, a televisão e também o rádio), elemento chave, para a propaganda ideológica do poder dominante. O rádio sempre exerceu e continua exercendo grande fascínio entre os políticos. Getúlio Vargas foi o primeiro político brasileiro que percebeu a força do rádio e o vê como um instrumento de integração nacional e de um meio de divulgar os feitos do presidente e exaltá-lo. Criou o Departamento Oficial de Propaganda, (DOP), e posteriormente o Departamento de Imprensa e Propaganda, (DIP). Em 1934 surge a Voz do Brasil, que se tornou um instrumento do Estado para estreitar a relação das classes trabalhadoras e o Governo. Em 1936 surge a emissora que se tornou modelo para todas as outras e que até hoje é lenda, entra no ar a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Ela conseguia fazer seu sinal chegar a todo o território brasileiro, assim como na América do Norte, na Europa e na África.
A censura é entendida aqui como conceitua KHEDE.
“A existência da censura está presa á produção e reprodução de uma realidade simbólica indissociável de sua função política. Todo censor trabalha sob a ótica do seu ser social, isto é, o que ele representa na sociedade. Portanto, ele está sempre defendendo aquela classe social á qual pertence em detrimentos das outras.” ( KHEDE, 1981:47)
Na época, a censura acontecia não só nas emissoras de rádio e nas redações como ressalta Silva (1992, as companhias de teatro viam-se cerceadas por quatro tipos de censura: auto censura; a falta de apoio e verba, fazendo-as falir; agressão física e a censura propriamente dita.
Segundo Márcia Vidal Nunes, Vargas tentou controlar o rádio de outras formas além da censura. “Como na Alemanha, o controle do rádio no Brasil foi além da censura. Getúlio resolveu assumir o comando da principal emissora de rádio do país”. Em 1940 a rádio Nacional foi encampada pelo Estado ( Nunes, 2000:59).
As razões da relação da preferência da política, ou dos políticos pelo veículo rádio nós as encontramos em Ortriwano:
Meio de comunicação com grande poder de penetração entre as massas, muito cedo o rádio e a política se uniram, com objetivos de doutrinação ideológica. E o rádio conseguiu servir aos interesses políticos com “maquiavélica” eficiência. (ORTRIWANO, 1985, p.60)
Para a autora, a influência política visa garantir a adoção por parte das empresas de rádio e televisão de uma linha mantenedora do status quo do grupo dominante. E esse controle é feito por medidas que vão desde a censura à violência física, ações jurídicas, ameaças, etc. É essa relação entre as formas de controle e a atividade jornalística da Rádio Uirapuru em 1968 o foco principal desse trabalho.
Para o jornalismo, 1968 foi um tempo especialmente difícil, o primeiro ano da instauração da censura prévia pelo Governo Federal. A liberdade de expressão passava, a partir dali a ser engavetada. Especificamente no radiojornalismo cearense e principalmente nos programas jornalísticos da Rádio Uirapuru a censura se fez pela intimidação da força presente. No relato do radialista Cid Carvalho, em entrevista concedida à equipe da Pesquisa História e Memória do Rádio Cearense, ele afirma:
“E u mesmo nunca sofrí censura nenhuma. Só depois, que durante os anos da “Revolução” fiz o noticiário com as forças armadas dentro do estúdio da rádio. Mas, nunca tive medo não.” ( CARVALHO, 2004)
Segundo Carvalho, na revolução existia a censura prévia.
“Eles ligavam para a rádio a qualquer hora do dia. Eles diziam que eu tomasse cuidado, perguntava se eu sabia o que estava fazendo. Isso pra mim é pior que a censura mesmo”. ( CARVALHO, 2004)
Ele conta que as restrições eram impostas pela polícia a mando do Estado porque os donos da emissora eram os maiores fãs dos programas jornalísticos. Apesar da instauração da censura prévia, existia uma resistência por parte dos profissionais de imprensa. Isso se prova pelas inúmeras vezes em que foram presos. Cid Carvalho, por exemplo, foi preso mais de uma vez por desobedecer as ordens da Polícia Federal.
José Júlio Cavalcanti, diretor de produção da rádio Uirapuru, conta em entrevista à equipe da pesquisa em 2003 que Cid era parecido com o pai.
“Ele era um menino muito bom, inclusive, entro no rádio pelas minhas mãos. Mas, ele era inconformado. Um dia ele me ligou dizendo que tinha recebido uma carta do 10° Batalhão Militar impedindo de ir ao ar qualquer programação que não tivesse o visto da polícia.. Aí eu disse que ele fizesse um pronunciamento, contando que a rádio não iria transmitir a programação por está insatisfeita com a atual situação. Ele disse tudo isso e terminou, dizendo: ‘É censura minha gente, o nome disso é censura’.” ( CAVALCANTI, 2003)
O pai de Carvalho, segundo ele, foi preso na Ditadura de Vargas por fazer um discurso se posicionando contra a possível aliança com os facistas pudessem fazer com o Brasil. Foi perseguido, agridido e condenado a 25 anos de prisão. Com a Anistia, ele ficou só um ano preso. Mas a falta do pai foi muito marcante.
“ Eu e minha família não tivemos infância. Quando meu pai foi preso eu nasci. Então eu e meus irmãos não tivemos infância vivia,os sobressaltados, com medo”. (CARVALHO, 2004)
Cavalcanti também sofreu censura. A partir já de 964, ele foi perseguido, passou seis meses escondido em outro Estado. “ O que me revolta é que fui preso não por ter roubado, mas por ter defendido e não esquecido minhas idéias” ( CAVALCANTI, 2003). Ele conta o dia em que a Polícia o chamou para saber de uma declaração que tinha feito há 20 anos, em 1944.
“ Uma vez a 10° região militar me chamou para que eu confirmasse uma frase que eu fiz para um artigo há 20 anos. A frase dizia que uma das minhas maiores emoções que eu tive foi fazer uma transmissão ao lado de Prestes, o cavaleiro da esperança. Mas não deu em nada, eles arquivaram.” (CAVAQLCANTI, 2003)
Esses são relatos, muitas vezes emocionados que os radialistas que viram esse momento da história. É claro que dois deles, Cid Carvalho e José Júlio Cavalcanti, ainda é uma amostra pequena, contando com o universo de jornalistas e radialistas que a rádio Uirapuru abrigava naquele ano, de 1968. Mas o estudo ainda continuará. Apesar de que já podemos perceber que não só as rádios, como também companhias de teatro, jornais impresso e demais expressões culturais cearenses. Repetiu uma ação que ocorreu não só no Ceará, como nos demais estados do Brasil.
Em alguns momentos, os entrevistados dizem que não houve censura, mas imediatamente depois, citam momentos que sofreram o cerceamento da sua liberdade de expressão, como é o caso do Cid Carvalho.
Bibliografia:
BENJAMIN, W. O narrador: Observações sobre a obra de Nikolai Leskow. Trad. M. Carone. In: BENJAMIN, W.; HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W.; HABERMAS, J. Textos escolhidos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Cia das Letras, 1990, p14-15.
CARVALHO, Gilmar de. A televisão no Ceará: consumo, lazer e indústria cultural. Fortaleza: Omni, 2004.
FILHO, João Dummar. João Dummar, um pioneiro do rádio.Fortaleza: Fundação demócrito Rocha, 2004.
NUNES, Márcia Vidal. Rádio e Política: do microfone ao palanque- os radialistas políticos em Fortaleza(1982-1996). São Paulo: Annablume, 2000.
ORTRIWANO, Gisela Swetlana. A informação no rádio: os grupos de poder e a determinação dos conteúdos. São Paulo: Summus, 1985.
QUEIROZ, Maria Isaura de. Relatos Orais do “indizível” ao “dizível”. In: SIMSON, Olga de Moraes(org.). Experimentos com histórias de vida (Itália- Brasil). São Paulo: Vértice/ Revista dos Tribunais, 1988.
SILVA, Erotilde Honórioo. O fazer teatral: uma forma de resistência. Fortaleza: Edições UFC, 1992
SOUZA, Simone. História do Ceará. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 1994.
THOMPSON, Jonh B. Ideologia e cultura moderna: teoria social criticiana era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis: Vozes,1995.
VASCONCELOS, Renata Ribeiro de. As cantoras do rádio cearense: trajetória e influência. Fortaleza: Universidade de Fortaleza, 2004.

Nenhum comentário:
Postar um comentário