25 anos de luta por emissoras livres
Por Antonio Paiva Rodrigues
A palavra comunitária teve origem
na língua francesa – communautaire – cuja adjetivação ou significado
refere-se ao respeito à comunidade, considerada quer como estrutura fundamental
da sociedade, quer como tipo ou forma específica de agrupamento. O rádio, forma
reduzida de radiofonia, é o aparelho ou conjunto de aparelhos para emitir e
receber sinais radiofônicos. Aparelho receptor de programas de radiodifusão, a
estação faz a emissão de programas através desse aparelho. A galena vem do
grego galene e do latim galena e sua sinonímia refere-se ao
mineral monométrico, sulfeto de chumbo, o principal minério de chumbo. (Quando
argentífero é também minério de prata galenita).
No Brasil, galena é o aparelho
rudimentar de rádio no qual se usa o cristal de galena; rádio de galena. Pelos
idos de 1980, estudantes britânicos insatisfeitos, para burlarem a legislação
da Grã-Bretanha que garantia à BBC (British Broadcasting Corporation) o
monopólio de rádio e televisão, começaram uma experiência de forma alternativa
com uma rádio. A Rádio Caroline serviu de experiência alternativa dos estudantes
para enfrentar a legislação daquele país. Foi instalada muito além das 12
milhas marítimas, fora dos controles do país.
Uma medida inusitada, a criação
de uma estação de rádio em um barco, de onde passaram a difundir suas idéias,
suas músicas, suas opções e cultura. Como todo aluno tem um arzinho de gracejo,
eles fincaram uma bandeira de pirata no mastro do barco, fazendo com que a
experiência ficasse conhecida como rádio pirata, expressão que pegou em cheio
alastrando-se pelo mundo inteiro. De piratas a comunitárias – emissoras de
rádio em frequência modulada (FM) sem fins lucrativos, operadas em baixa
potência e de cobertura restrita ao bairro em que se localizam, outorgadas a
fundações e associações comunitárias.
Reconhecimento e importância
Em São Paulo, na cidade de
Sorocaba, houve uma proliferação de mais de 100 emissoras de rádios
"pirata". Devido a essa inspiração, Sorocaba terminou por sediar o
maior movimento literário da radiofonia brasileira, ficando conhecida como
"Verão de 82 da Liverpool Brasileira". Muitos debates aconteceram na
cidade em defesa da liberdade de expressão e uma luta pela liberação das ondas
do ar para as emissoras locais. Foi a luta em defesa do espectro
eletromagnético. Uma repressão pesada aconteceu, mas muitas emissoras
sobreviveram, surgindo um fato sócio-jurídico em defesa dessas emissoras.
Dessa defesa nasceu um movimento
forte, surgindo então a criação do jornal impresso Radiocomunidade,
órgão oficial do fórum Democracia na Comunicação, principal fonte de consulta
dos estudos sobre a história das rádios comunitárias. A aprovação pelo público
da Rádio Verão fez nascer, em 1985, a Rádio Xilique, que tinha como
coordenadores professores e estudantes da PUC (Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo), com cobertura grandiosa da imprensa paulista. Afirmam os
estudiosos que a emissora serviu de ponte para denunciar a ditadura do
monopólio de comunicação, tornando-se com isso a mais lida e ouvida, mais lida
do que ouvida. Imprimia boletins e panfletos, anunciando sua programação de
ótima qualidade e fazendo com que milhares de estudantes que não podiam ouvir a
citada emissora quisessem saber nuanças da Rádio Xilique. Surgiram as passeatas
com estudantes encapuzados junto àqueles que queriam a liberdade de ação e
acabar com o monopólio da Rede Globo.
Dom Evaristo Arns deu apoio ao
movimento e combateu a repressão policial. Dom Evaristo era o chanceler da
PUC-SP. De visível, passou a funcionar subterraneamente, conta o professor José
Carlos Rocha – isso até 1988. Com a Constituição, os oligopólios e monopólios
eram expressões proibidas. Surgiu então o reconhecimento e a importância do
Estado Democrático de Direito, com capítulo inteiro dedicado à comunicação
social. Em 1989, surgiram 20 rádios "piratas", 20 "radiomantes",
e jornalistas, professores e adeptos do PT (Partido dos Trabalhadores)
conseguiram do diretor da Escola de Comunicações e Artes da USP, na época,
professor José Marques de Mello, instalação para promoção do evento.
"Dra. Solange" e a
"Dama da Tesoura"
Outras emissoras surgiram como a
Rádio Livre Reversão, da Vila Ré, Zona Leste da capital paulista, coordenada e
fundada por Leo Tomás Pigatti, fundador da primeira entidade de rádios livres
no Brasil, a Associação de Rádios Livres do Estado de São Paulo (ARLESP). Houve
empenho para inclusão de artigos na nova Constituição, nos anos de 1987 e 88.
Parece que a intenção não vingou. Muitas autoridades lutaram para a instalação
das Rádios Livre, como Cláudia Abreu (diretora de Comunicação da União Nacional
de Estudantes) UNE- Frederico Ghedini, do Sindicato dos Jornalistas, e José
Marques de Mello. No I Encontro, nasceu o Menerrelê, o Movimento Nacional de
Rádios Livres (MNRL). O movimento foi tomando força e surgiu o Coletivo
Estadual de Rádios Livres de São Paulo, inspirado pela nova Constituição e
houve um movimento querendo substituir a expressão "pirata", por
rádios livres.
Muitos protestos aconteceram
principalmente daqueles que queriam continuar sendo "piratas da perna de
pau". Aproveitando o ensejo, Jânio Quadros, ex-prefeito de São Paulo,
criou uma rádio não autorizada para ser usada na sua campanha para a prefeitura
paulista. Travava-se, a cada dia, uma luta titânica pela Rádio Livre. O
movimento das rádios comunitárias teria como título "Deixe de mentira, Cid
Moreira". Duas mil pessoas compareceram ao teatro da Universidade Católica
de São Paulo e depois à ECA. O Comitê se instalou, adquiriu oito transmissores
artesanais de rádio, formando duradouro estoque. Os encontros continuavam. O
segundo foi realizado em Goiânia (GO), com palestras transmitidas ao vivo por
uma "televisão livre". Macaé (RJ) recebeu o terceiro encontro.
A Polícia Federal fechou a Rádio
Reversão, tendo um agente apontado uma arma para Pigatti e todos os
equipamentos foram apreendidos. Essas rádios deram mais espaços às bandas
jovens do que a própria TV Globo. A Rádio Livre "Novos Rumos" também
foi fechada em 1991 e outras emissoras espalhadas pelo país tiveram o mesmo
destino. Em 1991, apesar da repressão, mais de 400 emissoras estavam no ar. O
que se estranhava é que no fechamento das emissoras pela PF (Polícia Federal)
sempre estava presente um veículo da Rede Globo que transportava os policiais
federais. Muitas pessoas, apaixonados pelas rádios livres, lutaram bravamente
pelo funcionamento dessas emissoras, como a "doutora Solange" e a
"Dama da Tesoura", que participavam ativamente.
Controle e programação
Marchas e contramarchas foram
fortalecendo o movimento, até que, em 1998, o movimento conseguiu o seu intento
e, através da Lei 9612, o Serviço de Radiodifusão Comunitária teve os objetivos
estabelecidos, como: dar oportunidade à difusão de idéias, elementos de
cultura, tradições e hábitos sociais da comunidade; oferecer mecanismos para a
formação e integração da comunidade, estimulando o lazer, a cultura e o
convívio social; prestar serviços de utilidade pública, integrando-se aos
serviços de defesa civil sempre que necessário; contribuir para o
aperfeiçoamento profissional nas áreas de atuação dos jornalistas e
radialistas, em conformidade com a legislação profissional vigente; permitir a
capacitação dos cidadãos no exercício do direito de expressão da forma mais
acessível possível.
Arnaldo Coelho Neto afirma em seu
livro Rádio Comunitária não é crime – Direito de Antena que o espectro
eletromagnético, como um bem difuso, relata todas as nuanças e o processamento
das rádios piratas, das rádios livres, até chegar à condição de Rádio
Comunitária. Uma obra excelente, da Editora Ícone, publicada no ano de 2002.
“Por certo, todos operadores do direito, comunicadores, os cidadãos e cidadãs
em geral, os pesquisadores, poderão, finalmente desfrutar desses
conhecimentos”. É o exercício do Direito de Antena, uma instituição que afeta o
seguimento do Direito Público apenas porque cabe ao Poder Executivo realizar
alguns despachos asseguradores do direito de utilizar o espectro
eletromagnético.
Aliás, uma questão de sinais de
trânsito, muito embora o tráfego das telecomunicações tenha sido até o momento,
um tráfico de influências políticas e outras. Contra tudo e contra todos, em
especial os patrimonialistas e os ditos cartorialistas da Comunicação Social,
os radiocomunitaristas estão dando uma edificante lição de vida para um setor
que, no Brasil, nem capitalista é – o da comunicação pública. “E mais: uma
história vem sendo escrita onde menos se esperava.”
Estas afirmações são dos editores
da obra aqui citada e merecem reflexão. Visto que, mesmo com regulamentação,
não se pode sair instalando emissoras e mais emissoras ao bel-prazer dos
interessados, o ar, as ondas sonoras ficaram poluídas de ruídos e a
interferência teria uma ação prejudicial para as demais emissoras. Mesmo sendo
em benefício da coletividade a que pertence o espaço ou raio de ação deve ser
limitado e o controle e organização das programações das rádios comunitárias
devem ser previamente estudados para que elementos nefastos não venham
prejudicar ou desestabilizar a comunidade a que a rádio esteja subordinada.
Tudo, para funcionar bem e a contento, precisa de controle, conforme o decreto
n°. 2.615/98 (que regulamenta as ações das Radcom). Poderíamos expor mais
fatos, mas a matéria poderia se tornar cansativa e não é esse nosso objetivo.

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